Mostrando postagens com marcador #desarquivandoBR. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #desarquivandoBR. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, abril 04, 2013

Minha terra tem Tony Tornado #desarquivandoBR

Desde sempre a produção cultural Negra na MPB foi objeto de diferentes mecanismos de cooptação e neutralização em sua cadeia produtiva. Aonde o local de fala do Negro era como Objeto ou Sujeito passivizado. Quando não era simplesmente calado. O conceito de Nação do regime político implantado em 1964 se aproveitou muito disso em sua propaganda política ao enfatizar o mito de democracia racial.

Neste contexto, incomodava alguém com cabelo Black Power. Incomodava alguém que dançava e cantava com orgulho de ser Black, usando o seu corpo como uma arma contra a repressão corporal. Incomodava alguém com posições claras pelo fim do racismo. Incomodava alguém que levantava os punhos cerrados no ar, como os Panteras Negras. Incomodava alguém que perguntava "Você teria por ele o mesmo amor/ Se Jesus fosse um Homem de Cor?". Incomodava ele incitar, pelo exemplo, a formação de organizações políticas no Brasil. Incomodava a Afirmação da Identidade Étnica que ele representava. Sozinho ou coletivamente, com sua influência.

O incomodo teve seu preço para Antônio Viana Gomes: nove passagens pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), discos apreendidos e Exílio. Suas músicas pararam de tocar nas rádio. E setores da imprensa começaram a assassinar sua reputação como cantor, Sem falar nos setores da Esquerda que já faziam Patrulha Ideológica que não entenderam (e até hoje não entendem plenamente) que há outras formas de se fazer política, e principalmente que a Pauta racial é uma pauta a ser levada a sério no Brasil.

Entender o contexto de existência de um Tony Tornado. Entender suas influências estéticas, sociais e políticas do seu tempo. Entender suas contribuição para o que entendemos de Música Negra Brasileira. Que não era só ele mas uma coletividade.  E entender por que e como essa contribuição foi limitada. Tudo isso mais outros fatos coligados é entender que havia uma Indústria Cultural que era influenciada por uma Estratégia de Estado que visava fortalecer um Projeto de Nação. Projeto de Nação que tinha um conceito de Cultura Brasileira que não admitia desvios.

 Projeto que não poderia ser denegrido.

 Post participante da VII Blogagem Coletiva #desarquivandoBR.

segunda-feira, abril 02, 2012

Eu queria Ser Odair José... #desarquivandoBR

O básico de qualquer ditadura que se preze é o controle da vida. A repressão persegue qualquer idéia contrária no campo cultural de maneira ampla. Podemos ver isso claro quando vemos a crítica comportamental que alguns Saudosos de 64 fazem, de forma bem ativa...

A obra de Odair José foi, nos anos 70, um dos marcos de ruptura do pudor brasileiro na música. Pegou um pouco da experiência de vida dele: Cantou muito em boates na região do cais do Rio de Janeiro. E, como um repórter, muito do que via da realidade do Porto ele colocou na música, convidando o ouvinte a reflexão e questionamento: exclusão social, alienação, adultério, homossexualidade, prostituição, anticoncepcionais, consumo de drogas e racismo. Sem metáforas. De forma adulta. Falava para um público, digamos, classe C, majoritariamente católico, conservador, apegado aos tabus, aos valores sociais vigentes.

Por tudo isso, foi um dos artistas mais perseguidos por fazer "canções que iam contra a moral e os bons costumes", preceitos considerados ‘sagrados’ pelos militares, Igreja, elite cultural...

Estamos falando do passado, mas ele se reflete no presente, quando pensamos que muitos destes temas ainda são problemáticos de serem abordados atualmente. Ainda falta maturidade na sociedade para falar sobre estes assuntos. O que cria o Caldo Cultural para que qualquer forma de restrição avance.

Quando todo mundo quer, no fundo mesmo, ser Odair José. E falar sem repressão do que sente e do que vê...

 


EDIT (01/04/2018).: por algum motivo que ignoro, quase todas as versões "Eu queria ser John Lennon tem cerca de um minuto a menos de música. Justamente a parte que o eu-lírico que queria ser John Lennon se declara a...
...Linda MacCartney.

Encontrei aqui a Versão que a Columbia fez para a coletânea em homenagem a Odair José, sem cortes.

 

Este post faz parte da quinta blogagem coletiva #desarquivandoBR, que se realiza de 28/3 a 02/4.

domingo, abril 01, 2012

Ele não era Chico Buarque. #desarquivandoBR

Não era a primeira música crítica que Luiz Ayrão fazia. Mas como falei antes, havia uma certa cegueira ao brega. O livro "Eu não sou Cachorro Não" de Paulo César Araújo, que fala sobre como estes Artistas foram tão ou mais perseguidos pelo Regime Militar quanto os artistas de "autorizados pelo cânone oficial da MPB" a serem "engajados". 
Lançada dia primeiro de abril de 1977, o nome original desta canção era "13 anos".           
Façam as contas... 
A Censura fez. E vetou a música. Com os discos prontos para ir para as lojas. 
Ao mesmo tempo, o senador Nelson Carneiro estava com a campanha do divórcio no Congresso. Até a aprovação do divórcio, só era possível desquitar-se, ou seja, dissolver a sociedade conjugal, com separação de corpos e bens, mas sem quebra do vínculo matrimonial. As pessoas se separavam, mas não podiam casar-se de novo. Nem lhes era permitido viver com outra pessoa.
Esta conjuntura dialogava com a letra da música. Desejo de ruptura com aquilo que prejudica outrem. A música foi apresentada para uma outra câmara da censura, com a mesma letra, mas com nome diferente: “O Divórcio”. Um outro setor de censura julgou e deixou passar. Quando perceberam o drible, já era tarde, a música já havia estourado. 

Havia intencionalidade de enfrentamento neste ato. Mas por algum motivo, as canções proibidas de Luiz Ayrão não lhe traziam o mesmo prestígio de Chico Buarque, por exemplo. Segundo Paulo César de Araújo, "os críticos, pesquisadores, musicólogos, enfim, os formadores de opinião, em sua maioria, pertencem a um segmento de classe média e formação universitária. O tipo de público que faz seu julgamento através da defesa do “autêntico”. (...). O que não for tradicional ou moderno não existe. Devido ao divórcio que existe entre a elite e o povo no Brasil, os ditos “cafonas” foram atirados no limbo da história." Ironicamente temos aí um encontro entre direita e esquerda no silenciamento de expressões populares, o que ajudava, e muito, o projeto ideológico da Ditadura Civil-Militar de dominação pela supressão de outras narrativas que não as canonizadas.

A Música Popular Brasileira que conhecemos do período assim passou por vários mecanismos de filtragem. Alguns continuam até hoje, semi-oficialmente. Saber a respeito ajuda a perceber a ruptura e, talvez, pensar Cultura Brasileira em novas perspectivas.


Não divorciadas do povo como narrador da própria história.





Este post faz parte da quinta blogagem coletiva #desarquivandoBR, que se realiza de 28/3 a 02/4.

sábado, março 31, 2012

Wando de Luta #desarquivandoBR

Quando se fala de protesto político na música dos anos 70, em geral pensamos na MPB "autorizada" e "oficial", com seus cânones com uma certa dose de assepsia social. Mas é difícil pensar uma canção que teve o impacto nas formas de organização das comunidades urbanas mais pobres, como teve “Presidente da Favela”, de Wando.

Com o bloqueio dos espaços públicos tradicionais da política — parlamento, sindicatos, partidos - a Organização visando a Participação Popular tinha que encontrar outros caminhos na época da Ditadura. Um deles foi os movimentos de organizações de moradores e comunidades carentes, com influência das Comunidades Eclesiais de Base.

Em 1977, Wando conheceu, em uma das suas participações no programa "Almoço com as Estrelas" de Aírton Rodrigues, o líder comunitário Dalvino de Freitas. E em homenagem a ele escreveu sobre a ausência de um presidente como aquele – da favela – no país.

Lembrando que não havia eleições diretas na época. Assim, as energias ficavam com a organização de base. Este lado desconhecido de um cantor colocado a margem da MPB mostra que o Cânone pode servir para que de tanto cantarmos sobre transformação da Sociedade, nos afastemos desta. Em alguns caso com muito "bom gosto".

A organização da Cultura na Ditadura Civil-Militar serviu para isso também. Terceirização das lutas populares, seja a direita e à esquerda.






Este post faz parte da quinta blogagem coletiva #desarquivandoBR, que se realiza de 28/3 a 02/4.

sexta-feira, março 30, 2012

O que fizeram com Vandré? #desarquivandoBR

Geraldo Vandré passou dois meses escondido até deixar o país de forma clandestina, em fevereiro de 1969. Morou em vários países, passando mais tempo no Chile e na França.

Quando ele retorna começam os mistérios.
Ele decide se afastar dos meio artístico. 
Informações desencontradas.
Uma Falsa entrevista no Jornal Nacional.
Aonde ele diz que foi usado e preocupado em fazer dali em diante apenas canções de amor e paz.`

Logo depois circulou um comunicado da Polícia Federal proibindo "qualquer notícia, comentário ou referência" a Vandré.

Não sei se o encontro relatado na Música é real, mas Benito de Paula relata da música abaixo o estado em que se encontrava Vandré. Escapando da Censura com imagens pungentes. 

Há vários tipos de tortura. 
Algumas bem cruéis. 
Como não poder ser quem é...


 


Este post faz parte da quinta blogagem coletiva #desarquivandoBR, que se realiza de 28/3 a 02/4.